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Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003
O MST e o Iraque
Em artigo publicado no seu site, o MST faz críticas ao ataque que o Iraque está prestes a sofrer. É um breve resumo da exposição da irmã Sharine, freira dominicana iraquiana, que vive em Bagdad. O final é contundente:
A certeza da tragédia é tão grande que a madre superiora de Irmã Shrine, ao despedir-se dela em Bagdad, recomendou que ela ficasse no Brasil, por seis meses, assim, depois da guerra, ela poderia retornar e recomeçar a congregação das Dominicanas, pois elas têm certeza que todas morrerão.
posted by Argemiro e Mariene Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003
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Meninos e presidentes
Ironias? Estava saindo do escritório de Normando, um advogado amigo que está me ajudando numas pendengas. Fica no Centro do Rio, em frente ao Aeroporto Santos Dumont.
Caminhando em direção à Cinelândia, preocupado com os bandos de meninos de rua que podiam me considerar com cara de barão, como se diz na Bahia, cheguei à Av. Presidente Wilson. Nela, dei de cara com O Beduíno, restaurante árabe. Oba! Esfiha! Primeira ironia: na avenida com o nome de um ex-presidnete norte-americano, um restaurante árabe, nos dias de hoje, de cerco ao Iraque.
Pedi uma promoção - salgado com guaraná natural por R$ 1,70 - e me apareceram três crianças. O maior, negro (na verdade, mulato), com olhos muito vivos, pediu para engraxar meu sapato. De pronto, neguei - não lembro nunca que estou de sapatos. Quando percebi, o chamei. Ele se acomodou no chão e chamou os outros dois para sentar ao seu lado. Eram uma menina branquinha, não devia ser sua parente, e um menino que podia ser seu irmãozinho.
Encostou uma mulher de meia idade, acabada, poucos dentes, muitas rugas. Pediu dinheiro para a condução, e dei R$ 1,00.
Fiquei com pena dos meninos, então, e tentei dar uma de magnânimo: chamei o atendente do balcão e falei para ele pegar mais três . Primeira decepção: o pequeno não gostava de esfiha, pediu um joelho (enroladinho de presunto e queijo), e a menina só quis seu guaraná. A mulher, com os olhos brilhando, veio dizendo:
-A gente sem almoçar fica com uma fome...
Tentei dizer não, mas a esfiha do pequeno estava mordida e a mulher me pareceu tão incapaz, tão indefesa (alcoólatra? deficiente?), que acabei lhe dando a comida, não sem antes reclamar com ela que já tinha recebido dinheiro.
O mais velho, todo compenetrado, engraxava o sapato. O balconista, visivelmente simpático ao menino, perguntou:
-Você vai querer o que, Alexandre?
Vendo-o tão responsável e respeitado, perguntei:
-Você vai à escola, Alexandre?
-Não. A diretora mandou chamar minha mãe, porque que bati na minha irmã dentro da escola. E minha mãe tá procurando outra escola pra mim.
Alexandre acabou o serviço, escolheu um quibe. Insisti que pegasse um guaraná, que me custaria, na promoção, mais R$ 0,20 (vinte centavos!) Paguei-lhe mais dois reais, ele disse que costumava cobrar um. Fizemos as contas, o balconista e eu. E saí. Acabei voltando, para comentar, sem perceber, outra ironia na avenida com o nome de um presidente norte-americano:
-Alexandre, não bate mais na tua irmã, e acredita no futuro. O presidente do País também já engraxou sapatos.
E fui embora. Com uma vontade esquisita de chorar.
posted by Argemiro e Mariene Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003
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Terça-feira, Fevereiro 18, 2003
Morte on line
Anos atrás, a astróloga, poetisa e psicóloga Clélia Romano escreveu uma crônica: O fantasma que assombrou a rede. Não achei a crônica, parece que ela tirou do ar. Mas era sobre um poeta que transmitiu ao vivo, on line e com todas as letras sua carta de despedida. Muita gente achou que era um spam, mas parece que foi verdade. O poeta teria se suicidado.
Agora, na lista cibercultura, da UFBA, chega a notícia: Brandon Veras estava on line na sala de chat e foi mostrar na sua webcam como era resistente a drogas. Não era. Morreu na frente de vários outros jovens, que assistiram sem acreditar, ou sem poder fazer nada.
Um site in memorian criado por seus pais explica tudo, ou quase.
posted by Argemiro e Mariene Terça-feira, Fevereiro 18, 2003
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Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003
Ocultos tesouros
Toda cidade tem seus tesouros, uns ocultos, outros públicos. São Paulo, uns anos atrás, me revelou um deles: há um lindo relicário, um ícone trazido da Rússia por um imigrante fugido da Revolução na década de 1920. Uma nota num jornal me revelou que ele está lá, na Igreja de São Bento, escondidinho numa coluna à direita da porta de entrada. Hoje, por acaso, o Rio de Janeiro revelou-me um dos seus. Fui acompanhar o colega Walter Becker Maciel ao Colégio Santo Inácio, em Botafogo (Rua Humaitá), para apanhar seu filho Pedro. O Colégio é dos jesuítas. No saguão de entrada, perto da secretaria, há três lindas esculturas barrocas: um Cristo crucificado, Maria e Madalena. Fantástico! Uma plaquinha informa que são do século XVIII (1720), e vieram da Igreja do Morro do Castelo (jesuíta, claro!). Para quem não sabe, o Morro do Castelo veio abaixo com igreja e tudo, em 1922, para alimentar algum aterro. E as estátuas foram parar no Colégio... (Tem mais Morro do Castelo aqui.)
E, para não ficar apenas nisso, vamos às lendas: como os jesuítas saíram corridos do Brasil em 1759, circularam histórias durante décadas de que teriam deixado para trás um tesouro enterrado. Lima Barreto escreveu um livro, Os subterrâneos do Morro do Castelo. O Terra tem o livro virtual.
posted by Argemiro e Mariene Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003
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Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003
Assunto: Seu pai faleceu
Tem gente criativa neste mundo. Veja só o spam que recebi:
From: contato@funerariatorres.com
Subject: Seu pai faleceu.
NOTA DE FALECIMENTO
CALMA !!.... não passa de um susto !!
Viu só como é importante zelar pelo seu futuro e de seus entes queridos ?
TEMOS PLANOS ESPECIAIS PARA SEU FUTURO NO CÉU... OU NO INFERNO...!
CONSULTE NOSSAS OPÇÕES DE HOSPEDAGEM FUTURA !!
CEMITÉRIO JARDIM DOS ESPÍRITOS
(47) 537-9333
ESTE E-MAIL ESTÁ SENDO ENVIADO DE ACORDO COM AS REGRAS E NORMAS DO 3° COMITÊ GESTOR DO SPAM.
VOCÊ NÃO GOSTOU??
ENTÃO VENHA NOS VISITAR PARA VER O QUE FAZEMOS COM VOCÊ....!
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Assim mesmo, preto com letras brancas. E nem deram uma URL pra verificar o que mais pretendiam! Difícil saber se é um spam, se é uma corrente, se é uma lenda urbana, um hoax... Fiz uma pesquisa no google (guglei?) por Jardim dos Espíritos e achei apenas o blog A vida como ela é bizarra, da Brida.
Sinceramente, não faz meu estilo. Mas, se você quer saber da vida da moça... Vai lá. Seu comentário sobre o hoax já tá fora do ar.
posted by Argemiro e Mariene Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003
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Drummond e as turistas
Vou fazer um ano de Rio no fim do mês e só agora fui visitar Drummond. Um Drummond de bronze, despreocupado, olhando o vazio, perdido em reminiscências. Talvez pense nos tempos em que a marginalidade tinha glamour, o tempo do Cara de Cavalo, do Homem da Capa Preta, da Lili Carabina...
Diz o Goulart - Goulart Gomes, o poeta - que Drummond não queria estátua. Acredito. Mas se ele já não se pertencia quando vivo, que dizer agora, que deixou a vida para entrar na História, como Getúlio não escreveu? Drummond é do povo, como o céu é dos pombos e dos condores.
Daí que saí procurando Drummond pelos bancos de Copacabana. Quando menos esperava, dei de cara com ele. Como já disse, Drummond fitava o nada, com os olhos looongeee... Ao seu lado, uma gaúcha tomava seu chimarrão (Só gaúcho para andar por aí com cuia, bomba e garrafa térmica...). De costas para ele, completando a figura como um espelho, um homem fitava as areias.
Quando eu ia chegando, um movimento. Uma turista estrangeira - pelo sotaque castelhano - sentava-se ao lado da estátua que, teimosa, insistia em fitar o nada. A filha a fotografou: primeiro, ao lado do poeta; depois, com o Pão de Açúcar ao fundo. Fiquei com vontade de perguntar-lhes se sabiam quem foi Drummond. Mas elas começaram a desconfiar do meu jeito, me olharam com suspeita, e disfarcei.
Logo em seguida, mais duas turistas, desta vez mineiras, foram se aproximando. Perguntava uma delas, rindo:
-É uma múmia?.
Olhei, curioso, e expliquei:
-É o Drummond.
-Ahhhh! Esquecemos a máquina! Justo nós que somos mineiras! E explicou: -Achei que fosse uma daquelas múmias, aquele pessoal que fica posando...
Contei que é uma moda no Rio fazer estátuas assim: tem a do Noel Rosa, em Vila Isabel, do Oto Lara Resende, no Jardim Botânico...
Elas, parece, começaram a me estranhar: quase saíram correndo. Senti que não dava nem pra ficar curtindo o poeta. E peguei o rumo do hotel. Não sem antes experimentar uma barriga de freira numa doceriazinha.
Drummond continuou lá, espiando o povo que passa apressado pelo Calçadão.
posted by Argemiro e Mariene Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003
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