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Quarta-feira, Março 02, 2005

 

Morreu um herói

Posso parecer forçado, até piegas ("babaca"). Mas é assim que vejo Lino Rojas. Quando o conheci, eu tinha acabado de entrar para o curso de Geologia da USP. Três centros acadêmicos, o CEPEGE, o CAPSI e o CA da Economia o tinham contratado para formar um grupo de teatro.

Lino era peruano e vivia no Brasil fazendo teatro de resistência.Era um educador. Sentava conosco, discutia, apresentava propostas. Foi ele quem, anos atrás, dirigiu o GTGeo na montagem de "Contratanto", uma versão de O Contratado, texto coletivo do Libre Teatro Libre, de Córdoba, Argentina. Falava das dificuldades que o professor tem, como trabalhador e como educador, os seus confitos, suas dúvidas.

Antes disso, lembro de termos montado um sketch com um outro texto do mesmo grupo, cinco cenas falando de um líder operário. Encerrávamos cantando o refrâo do Hino à República ("Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós") e recitando um poema argentino:
O canto do pobre não pode continuar
ameaça nosso presente
ameaça nosso passado
ameaça nosso futuro
Disse o Terror
e fez soar seus sino.
Ra-ta-ta-ta
Retumbou em todos os rincões
e apareceu o medo
quando o antropófago
devorou o poeta.


Engraçado é que discutimos como expressar essa idéia. Todo mundo achava aque pegava mal "o antropófago comeu o poeta", até que sugeri "devorou".

Lino acreditava no teatro como força de transformação. Quando Erundina era prefeita, encontrei-o no gabinete do companheiro Adriano Diogo, vereador. Lino reclamava de Marilena Chauí, que tirara verba do teatro popular de periferia.

Lino viveu toda sua vida perseguindo o sonho de um mundo melhor. Nós, que o conhecemos, não podemos simplesmente deixar sua memória se esvanecer.

SEM PISTAS

Diretor de teatro é morto

| DA REPORTAGEM LOCAL | DO "AGORA" |

Exames realizados pela Polícia Federal confirmaram, anteontem, que o corpo encontrado no último dia 24, em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo), é do diretor de teatro peruano Lino Rojas Perez, 62, que estava desaparecido havia nove dias.
O corpo estava parcialmente carbonizado e só pôde ser identificado por meio da comparação das digitais de Rojas.
Segundo a família, o diretor foi visto pela última vez em um bar no centro da capital. O carro dele foi achado queimado, no dia 22, em São Miguel Paulista (zona leste). O bloqueio da conta corrente e dos cartões da vítima só foi feito no terceiro dia. A família diz que foram efetuados saques e descontados cheques nesse período.
O caso é investigado como latrocínio (roubo seguido de morte), mas ainda não há pistas dos criminosos. Policiais também admitiram a hipótese de Rojas ter sido vítima do golpe "boa- noite-cinderela". A família descarta.

Ação social
O diretor desenvolvia projetos de grupos e teatro com jovens em bairros da periferia de São Paulo.
O assassinato de Rojas espelha a violência nas periferias -é claro, também desabrigadas de cultura-, nas quais atuava preferencialmente desde sua chegada ao Brasil em meados da década de 70. No final dos anos 80, criou a Companhia Artística Pombas Urbanas na mesma região onde seu carro foi queimado e o corpo, dias depois, encontrado carbonizado.
Há meses, a companhia virou instituto e montou sede em Cidade Tiradentes, no extremo leste. Rojas conjugava teatro como ação social. Era militante do que entendia por arte transformadora, comunitária no rés-do-chão e na utopia, herança política dos estudos e de grupos independentes em Lima, como o Yuyachkani, um dos mais significativos conjuntos à esquerda da cena latino-americana, em atividade há 34 anos. Afirmação de identidade e cidadania compõem a base do corpo e da dramaturgia nos espetáculos de Rojas e Pombas Urbanas.

posted by Argemiro e Mariene Quarta-feira, Março 02, 2005
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